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"Janelinhas para o Mundo" - reflexões, contos, crônicas: cenas de uma infância inesquecícel.

Por onde nascem os bebês?

Oriza Martins Pinto


       Naqueles tempos dos “anos dourados”, especialmente nas comunidades pequenas, os temas ligados a “sexo” constituíam-se num tabu inexpugnável para as crianças. Por vergonha, timidez, costume e até mesmo por ignorância, raramente as mães orientavam as meninas sobre o assunto. Os parcos conhecimentos que estas obtinham eram adquiridos entre crendices, superstições e um sem-número de explicações estapafúrdias passadas por colegas, nas ruas ou na escola.

      Há algum tempo, a pequena Isa remoía-se em curiosidade por saber como os bebês nasciam.
      Finalmente, enchendo-se de coragem, Isa perguntou à mãe:
      - Por onde saem os bebês?
      Tomada de surpresa, Dona Bila titubeou um instante, depois respondeu, encabulada:
      - Eles saem... por onde entram!
      A pequena Isa não teve tempo de continuar o inquérito. Rapidamente, Dona Bila dirigiu-se à cozinha, simulando necessidade de cuidar dos afazeres, mas estava, em verdade, fugindo à cena, preocupada com o rumo que poderia tomar a ousadia daquelas perguntas.
      A pequena Isa, a partir de então, passou a repisar um novo questionamento:
      - Por onde entram os bebês?

      Aos poucos, entre uma pseudo-explicação aqui e outra ali, a pequena Isa acabou por entender que os bebês eram feitos pelo pai e pela mãe, em conjunto, mais ou menos como os animais. Ao se lembrar de que os cãezinhos permanecem algum tempo atrelados no fim do ato sexual, Isa arrepiava-se, imaginando uma cena semelhante entre adultos.
      Isa e as colegas, especialmente Cininha e Tati, viviam conjeturando hipóteses. Em sua imaginação, os bebês eram gerados aos pedacinhos, ou seja, a criança crescia na barriga da mãe à medida que iam sendo montados os braços, as pernas, a cabeça, um de cada vez... A cada relação do pai com a mãe, um novo pedaço ia sendo feito...
      Certo dia, faleceu o marido de uma jovem senhora que estava grávida.
      - E agora? – preocupavam-se as garotas. – Como é que a mãe, viúva, sozinha, vai terminar de fazer o bebê?
       A partir de então, sem coragem para pedir maiores explicações aos adultos, as três garotas passaram a acompanhar o processo de gravidez da jovem mãe, com uma ávida curiosidade, certas de que a criança nasceria incompleta.O que faltaria? Um braço? Uma perna? Os cabelos? As garotas conjecturavam a respeito, preocupadas.
       O bebê nasceu perfeito, lindo. Não faltava nada! As meninas permaneceram por um bom tempo sem entender o que acontecera. Acrescentaram mais indagações que certezas à sua sede de saber. Dentro de seu processo de construção do conhecimento, dados novos se inseriam, porém faltava-lhes a necessária orientação a que todo aprendiz faz jus. 
       De algum modo, porém, mais uma janelinha se abrira no intrigante pequeno-grande mundo da curiosa Isa.

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