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"Janelinhas para o Mundo" - reflexões, contos, crônicas: cenas de uma infância inesquecícel.

A mulher-aranha e o cãozinho Capucho

Oriza Martins Pinto  

       Vez por outra, a cidadezinha de Monte Verde se iluminava com a presença de uma novidade considerada sempre fascinante, ansiosamente aguardada pelas crianças: a chegada de um circo ou, às vezes, de um  parque-de-diversões. Nas rodas de conversa, na escola, nas lides do dia-a-dia, os assuntos giravam em torno das atrações que haveriam de encher de regozijo tantas mentes, almas e corações da pequenina Monte Verde.
       Numa dessas temporadas gloriosas, um interessante parque-de-diversões instalou-se na cidade, prometendo, para o primeiro fim-de-semana, a apresentação de algo fantástico: uma "mulher-aranha" enorme, vivinha, em pessoa, trazida diretamente do estrangeiro! Das florestas africanas! Imediatamente, começaram as especulações sobre a mulher-aranha:
       - Meu tio já viu uma! - garantia o Lolo. - Tinha corpo de aranha caranguejeira e cabeça de mulher, patas enormes, pretas, peludas, que ficavam se mexendo, assustando todo mundo. E a teia que ela fazia era mais forte do que uma rede de pescar!
       Uau! A mulher-aranha passou a povoar o imaginário de todos, inclusive da pequena Isa. 
       Quando saía de casa, geralmente Isa era acompanhada por seu cãozinho chamado Capucho. No sábado à tarde, a pequena foi ao parque-de-diversões, com a irmã Zazá e a colega Ditinha, ver a mulher-aranha. O cãozinho Capucho, naturalmente, foi junto com as garotas.
       Com a respiração suspensa, - misto de emoção e medo -, as meninas entraram na tenda onde ficava a mulher-aranha. Ninguém podia se aproximar muito. Era perigoso! Havia uma cerquinha separando o público daquela estranha criatura. Isa deteve-se diante dela, examinando-a, impressionada: instalada sobre uma espécie de estrado em forma de escada, medindo aproximadamente dois metros, ela se esparramava toda, grudada em sua gigantesca teia, exibindo as grossas patas, pretas, peludas. O corpão era gordo e, respeitadas as proporções, exatamente como o de uma aranha comum. Mas a cabeça... era mesmo a de uma mulher, vivinha, só que, em lugar do cabelo, havia enormes pêlos pretos que desciam como uma touca, contornando o rosto lindo, maquiado e sorridente.
       Isa admirava tudo, extasiada, mas seu êxtase foi quebrado quando o cãozinho Capucho viu a mulher-aranha e começou a latir furiosamente.
       - Capucho! Volte aqui, fique quieto! Capucho! - gritava a pequena Isa, tentando alcançá-lo.
       Capucho continuava latindo e se esgueirando entre o público. Isa pôs-se, então, a persegui-lo, antes que ele atacasse a mulher-aranha.
       - Venha, Capucho!
       Finalmente, com a ajuda de algumas pessoas, Isa conseguiu pegar o Capucho e permaneceu o resto do tempo segurando-o no colo, enquanto continuava a admirar a mulher-aranha que, a essa altura, sorria bastante diante da cena. Sorria apenas, mas não dizia nada.
       O fim-de-semana terminou, a mulher-aranha foi embora, mas o parque-de-diversões continuou na cidade. A atração programada para o sábado seguinte também deixou a todos em polvorosa. Um grande mágico viria à cidade e ia apresentar um show chocante! Ele ia serrar uma mulher ao meio, bem na frente de todos, e ela não morreria. Ficaria viva, dividida em duas partes, conversando, numa boa!
       No sábado à noite, Isa foi ver o show da mulher que seria cortada, mas, desta vez, cuidou para que o cãozinho Capucho não a acompanhasse. Se ele queria pegar a mulher-aranha, imaginem então uma mulher serrada, cortada, cheirando a sangue! 
       Quando a pequena Isa ia se aproximando do local, alguns colegas já estavam voltando, frustrados.
       - O mágico já serrou a mulher! Não deu pra gente ver serrar! Ela já está lá, dividida ao meio, em cima da mesa! O corpo, da cintura para cima, está de um lado e, da cintura para baixo, está esticado na mesa.
       - E está viva? - quis saber a Isa.
       - Vivinha da silva! Até conversa com a gente! Mas está toda cheia de sangue!
  A pequena Isa entrou ansiosa no recinto, onde uma grande mesa expunha a mulher cortada. Era impressionante! A mulher era uma moça linda e estava vestida, sobre a mesa, na posição "em pé", ou melhor, era visível apenas da cintura para cima, e sorria para todos. O resto do corpo da cintura para baixo -, ficava ao lado, esticado, mas também estava vestido e calçado. Dele só se via o local em que fora serrado, na altura da cintura, sangrando. Parecia carne de vaca.
       Isa observava tudo, com vagar, impressionada. A mesa continha uma enorme toalha, toda manchada de sangue, e não era possível ver nada embaixo dela. Enquanto observava, a pequena Isa percebeu que a moça - a mulher cortada -, olhava com insistência para ela, sorrindo. Quando Isa se aproximou, chegando bem perto da mesa, a moça abriu-lhe um sorriso ainda maior, e a pequena, paralisada pela surpresa, boquiaberta, ouviu a mulher cortada perguntar-lhe:
       - Olá! Cadê o Capucho?

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