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"Janelinhas para o Mundo" - reflexões, contos, crônicas: cenas de uma infância inesquecícel.
Houve um tempo, não tão distante desta virada de século, há algumas décadas, uma época conhecida - pelas novas gerações - por "anos dourados", em que ser criança era somente... ser criança.
                  Em muitos rincões deste Brasil de Deus, ainda não se cogitava a existência de televisores; apenas ouvia-se falar em um tipo de rádio que "mostrava os artistas lá dentro", cantando e falando. 
                  Nesse universo ingênuo, na pequenina cidade de Monte Verde, perdida no poético interiorzão paulista, o programa de fim-de-tarde e começo-de-noite era brincar de pique na pracinha central, um dos poucos momentos em que os moços e as moças topavam misturar-se à  meninada. 
                  Nesse mundinho feliz, vivia a pequena Isa.

O que é “ficar mocinha”?

 

Oriza Martins Pinto
     A questão da primeira menstruação constituiu-se em um caso à parte nas vidas das três garotas, Cininha, Tati e a pequena Isa. Elas sabiam, por ouvir dizer, assim mais-ou-menos, que as moças sangravam. Imaginavam, porém, que, ao tornar-se moças, sangrariam sem parar, pelo resto da vida. Nem sequer lhes passava pela cabeça que as moças sangrariam apenas alguns dias, em ciclos mensais, nada disso...
     Aliás, o conceito de “moça” também formava um redemoinho na cabeça das meninas. Às vezes, ouviam dizer:
     - Fulana já é “mocinha”. 
     Ou então:
     - Fulana não é mais moça.
     O que significava “ser mocinha”? E o que significava “não ser mais moça”? A falta de diálogo, de educação sexual, provocava um emaranhado de conceitos enviesados em suas mentes. Imaginando que as moças sangravam sem parar, as três garotas, sempre que possível, procuravam observar suas irmãs maiores, quando subiam em árvores, por exemplo. Tentavam visualizar as calcinhas delas, para conferir se estavam manchadas de sangue.
     Um dia, uma das meninas – a Cininha - chegou apavorada. Ela estava sangrando! Contava, então, onze anos. E como doía, doía tanto...
     As outras, solidárias, acercaram-se dela. Contar para a mãe? Nem pensar, não teriam coragem, morreriam de vergonha. Que fazer, então?
     - Rezar! Vamos rezar, - sugeriu a pequena Isa. – Vamos rezar para que o sangue pare de sair!
     As meninas puseram-se a rezar. Nos dias que se seguiram, continuaram rezando, à noite, de dia, sempre que podiam. Finalmente, após alguns dias... que maravilha! Parou! Deu certo! Que bom! Foi bom rezar!
     Felizes da vida, as garotas sentiam que o problema sempre se resolveria facilmente, quando chegasse a vez das outras. 
     - Vamos rezar, que o sangue pára de descer!
     Após algumas semanas, Cininha voltou chorando. Estava sangrando de novo!
     - Vamos rezar, - concluíram as três.
     Rezaram, rezaram e, após três dias, o sangue parou. Deu certo, de novo! Que alívio!

     Alguns dias depois, a mãe de Cininha recebeu a visita de Dona Zizi, mãe de uma outra garota da escola – a Mima -, que era alguns anos mais velha do que as três amigas. Dona Zizi perguntou, interessada:
     - A Cininha já é mocinha?
     Tomada de surpresa, a mãe de Cininha não soube o que dizer. Cininha, por sua vez, não titubeou, lembrando-se de que não sangrava mais:
     - Eu não sou mais! Eu era!
     As duas senhoras se espantaram:
     - Como? Você era mocinha e não é mais? O que está querendo dizer? – indagou a mãe, preocupada.
     Cininha fez um breve relato da situação. Contou que sangrara duas vezes e que, por causa de tanto rezar, não sangrava mais.
     As duas senhoras riram diante do relato de Cininha. Dona Zizi, então, explicou:
     - Estou perguntando se você já é mocinha, porque quero saber se a minha filha já é também. Pensei que você soubesse se ela já ficou mocinha, ou não. Vivo perguntando a ela, mas a Mima não confirma, permanece calada. 
     - Não sei, Dona Zizi, a Mima nunca me falou nada... – respondeu Cininha.

     Na verdade, Mima era uma garota mais velha e não conversava com as três – com Isa, Cininha e Tati -, com tanta intimidade. Se elas fossem mais íntimas, teria sido ótimo, pois a Mima possuía um bom conhecimento a respeito do assunto, naturalmente orientada pela mãe, Dona Zizi.
 
     Dona Zizi, então, revelou um mundo novo para Cininha e, em conseqüência, para Tati e Isa.   Calmamente, explicou-lhes, à sua moda, o que era menstruação, ciclo menstrual, cólicas, e, mesmo sem usar o conceito de “ovulação”, que provavelmente ignorasse, contou sobre os riscos de uma gravidez:
    - Depois de ficar mocinha, se a menina “fizer besteira” com algum rapaz, fica esperando nenê. Portanto, isso é muito perigoso, não deve ser feito sem casar!
    Cininha ouvia, embevecida, as explicações de Dona Zizi. Apenas um detalhe deixou-a triste:
    - Quer dizer que o sangue e as dores vão voltar todo mês?... indagou-se, desanimada.

    Um mundo novo, de conhecimentos, abriu-se para as três amigas. Novas janelinhas!

    A pequena Isa, especialmente, sempre que possível, procurava buscar nas leituras as explicações para suas dúvidas. Tempos depois, quando estudava em um colégio de freiras, passava horas na biblioteca pesquisando os livros de biologia e ciências. As pesquisas a ajudavam bastante, embora, às vezes, algumas publicações aparecessem mutiladas, com páginas arrancadas. Uma forte hipótese a esse respeito, entre as alunas, creditava o fato a uma freira idosa, excessivamente pudica, que arrancava as páginas onde havia gravuras dos órgãos genitais, para que as meninas não as vissem... A religiosa lecionava História do Brasil no colégio e, nesse sentido, também, as alunas sabiam que era pouco recomendável entregar trabalhos escolares com figuras de índios nus... 
 
    Fatos como esses constituíam para a pequena Isa novas janelinhas que se descortinavam, no seu processo de crescimento interior, aperfeiçoamento da capacidade de discernimento e construção de uma visão crítica da realidade. 

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