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"Janelinhas para o Mundo" - reflexões, contos, crônicas: cenas de uma infância inesquecícel.
 Houve um tempo, não tão distante desta virada de século, há algumas décadas, uma época conhecida - pelas novas gerações - por "anos dourados", em que ser criança era somente... ser criança.
                  Em muitos rincões deste Brasil de Deus, ainda não se cogitava a existência de televisores; apenas ouvia-se falar em um tipo de rádio que "mostrava os artistas lá dentro", cantando e falando. 
                  Nesse universo ingênuo, na pequenina cidade de Monte Verde, perdida no poético interiorzão paulista, o programa de fim-de-tarde e começo-de-noite era brincar de pique na pracinha central, um dos poucos momentos em que os moços e as moças topavam misturar-se à  meninada. 
                  Nesse mundinho feliz, vivia a pequena Isa.

 

A noiva-bela-adormecida 
                                                                                               Oriza Martins Pinto
           Um dos programas mais fascinantes, na vidinha feliz da pequena Isa, era assistir a casamentos. A visão etérea da noiva, em seu longo vestido branco, lembrava-lhe as histórias de príncipes, princesas e fadas. Por isso, Isa sempre achava que a noiva deveria segurar uma varinha com estrelinhas na ponta, não um ramo de flores. Mesmo assim, o acontecimento revestia-se, para seu  profundo encantamento, de pura magia.

           Entretanto, houve um momento em que essa magia haveria de se partir.
 
           Um grande casamento fora marcado para certo dia especial, naqueles primeiros anos dourados da década de 50. A festa estava sendo preparada desde a véspera.
           A noiva, feliz, uma das mais lindas moças de Monte Verde, ajudava a pegar os frangos que seriam preparados para o banquete, no dia seguinte. A um dado momento, tentando alcançar uma das aves, de repente, ela sentiu um pequeno comichão. Mas não deu importância ao caso.
           Mais tarde, porém, começou a sentir-se mal. E, depois, seu estado foi-se agravando, cada vez mais, ficando cada vez pior. Ninguém sabia o que lhe acontecera. Alguém teve a idéia de verificar o local onde a noiva estivera e deparou com uma tenebrosa cobra venenosa, contorcendo-se. Cogitou-se, então, que a jovem havia sido picada, sem perceber. Dessa forma, na noite da véspera de seu casamento, a noiva precisou ser hospitalizada numa cidade próxima, onde havia mais recursos.
           O casamento precisou ser adiado.
           No hospital, nos dias que se seguiram, após várias hipóteses e diagnósticos, a terrível causa de seu mal-estar foi confirmada: ela havia sido picada pela cobra venenosa. A confirmação, porém, veio tarde, quando o veneno já lhe devastara a resistência e não havia mais esperança alguma.
           Assim, no fim-de-semana seguinte, ao invés de chorar de alegria numa festa de casamento, toda a pequena Monte Verde encheu-se de prantos para o funeral da jovem e consolo do noivo, sobre quem a mão do destino caíra tão pesadamente, ceifando vida, sonhos e esperanças. 
           O acontecimento causou comoção geral na cidadezinha.
           Acompanhada por sua mãe, a pequena Isa compareceu ao velório.
           A pequenina aproximou-se do caixão - que se encontrava exatamente à altura de seus olhos, e verificou, surpresa, que a moça falecida estava vestida de noiva. Erguida por sua mãe, Isa pôde visualizar aquela figura quase celestial que a deixou hipnotizada. 
           A visão da noiva em seu branco caixão contrastava e, ao mesmo tempo, se encaixava na idéia mágica que a pequena tinha a respeito dos contos de fada. O contraste ficava por conta da realidade: a noiva jazia inerte, e nada mais podia ser feito. Por outro lado, a imaginação de Isa insistia em transitar entre o real e o imaginário. Se, num átimo, compreendia o inevitável da situação, em outro momento não mais via a noiva morta. Imaginava tratar-se da Bela Adormecida e aguardava o momento de vê-la levantar-se, após o beijo do príncipe. 
           A pequena Isa esperou em vão. Não houve o beijo do príncipe, mas apenas o de um noivo arrasado, um simples mortal despedindo-se da amada até a eternidade.
          Findas as homenagens fúnebres, o cortejo seguiu para o repouso final daquela bela adormecida. A cidadezinha toda a acompanhou, solenemente, até a derradeira morada - no chamado "campo santo" que, em verdade, ficava mesmo um tanto retirado da cidade.
          Por muito tempo, comentou-se o ocorrido, em Monte Verde.
          O resto da história transcende o real e mescla-se às brumas da lenda.
          Dizem que o pai da noiva, assolado pelo sofrimento, passou por um período de turbulência emocional. Perambulava pela cidade, talvez à procura de sua princesinha querida .Um dia, quando já se comentava bastante o seu desvario, a pequena Isa viu-o passar rente ao portão da fazenda onde morava. Vó Chiquinha, cautelosa, tomou Isa pelas mãos e fez com que se aninhasse em casa. A pequena só teve tempo de voltar-se e avistar de relance aquele olhar perdido, sob os cabelos meio grisalhos, meio louros, encaracolados, desaparecendo na estradinha de terra. Essa imagem, tal como a da noiva-bela-adormecida, viria a congelar-se nas lembranças da pequena Isa.
          O noivo, por sua vez, também, entrando em descompasso com a realidade, muitas vezes foi visto vagando pelas diferentes plagas de Monte Verde. Mas, segundo consta, o tempo - esse incansável amigo e consolador das almas atormentadas -, ajudou-o a recompor-se, e o sol da felicidade voltou a iluminar a estrada de sua vida. Talvez, de seu pedestal celestial, aquela fada encantada tenha agitado sobre ele sua varinha de mágicas estrelinhas...

          Esse mesmo tempo, no entanto, cuidou de reforçar a lenda.
          Comentam que, no dia do enterro, foram vistas várias cobras seguindo o cortejo. 
          E até hoje, vez por outra, uma delas é encontrada rondando o túmulo da bela adormecida... 

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