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O sumiço dos gatos do Parque Trianon

Prólogo

Desatando as amarras do inferno...




            Berlim, Alemanha,1939. 
            Madrugada de uma noite de inverno, às vésperas da Segunda Guerra Mundial.

            Num momento em que o sonho da formação de um Reich Milenar alimenta à plena potência a fogueira de vaidades insanas do governo alemão, uma família foge do horror nazista. 

             Quando ainda não se vislumbram no horizonte sinais dos bombardeios aliados que haverão de detonar cidades, mentes e corações, um grupo de pessoas se esgueira na noite berlinense, em busca dos raios da verdadeira liberdade. 

             Mas não se trata, neste caso, de indivíduos representantes de nenhum segmento étnico discriminado, nem de pessoas hostilizadas por suas convicções religiosas, nem  de intelectuais dissidentes - nada parecido com minorias inocentes, perseguidas pela insensata política nazista. 

             São alemães nacionalistas, que amam sua pátria e que compreenderam as verdadeiras metas das loucuras oficiais e resolvem abdicar da convivência de amigos e parentes e partir em busca da verdadeira liberdade, - a liberdade de pensamento, direito mais alto da dignidade humana -, e quem sabe, no futuro, poderem resgatar esse valor inestimável para sua nação - que caminha para o caos.
            Um dos homens é  Henry Schmidt, Coronel da Whermacht - o Exército Alemão -, que resolve atuar numa nascente e ainda pouco divulgada organização - a resistência alemã - e lutar pela erradicação do nazismo em sua pátria. 

             Algumas mulheres e crianças caminham com o grupo, em silêncio. 

             Outro personagem masculino, aparentando cerca de 30 anos, não tem nada de militar. 

            Trata-se de um músico e, segundo consta, é o violinista predileto de Adolf Hitler. Leva consigo duas grandes malas, com instrumentos musicais. Tem um semblante entristecido. É irmão do militar e, desiludido, foge também. 

            Desde então, corre uma lenda segundo a qual ele teria ganho um violino Stradivarius legítimo de Hitler, com uma dedicatória assinada no corpo do instrumento, pelo próprio Führer. Segundo a lenda, esse violinista teria desaparecido de Berlim, às vésperas da Segunda Guerra Mundial. Estaria levando o instrumento consigo, ao fugir?

             Os membros da família em fuga desaparecem no sombrio emaranhado das ruas de Berlim... 

             E se envolvem nas brumas do tempo... 

             Algumas gerações se passaram desde aquela noite de fuga...

* * *
 
 

Sessenta anos depois...
 
 
 
 
 

* * *

Capítulo 1

Estranhas Luzes no Casarão







             São Paulo, Brasil, 1999. 

            Aproxima-se o mês de dezembro, numa fresca manhã de primavera.

            Na capital paulista, cidade conhecida por codinomes como terra da garoa,paulicéia, sampa e tantos outros, metrópole plena de contrastes econômicos e socioculturais, a virada do milênio é o assunto do momento. Acrescente-se a isso a comemoração dos 500 anos da Descoberta do Brasil -  e os meses vindouros prometem muitas emoções!
            É exatamente esse o tema que o Professor Hércules está desenvolvendo com os alunos da Escola Terra Brasilis, localizada no bairro do Bexiga. 
            Na fresca manhã de primavera, atendendo a uma solicitação do Professor Hércules, as alunas Carol e Milena, da 8ª série, percorrem, apressadas, os corredores e as escadas, em direção ao sótão do prédio escolar.

            - Ei, parece que está escurecendo lá fora, Carol! Será que o tempo vai mudar? - indaga Milena a sua colega de classe.
            - Pra variar, né, Milena? Que pena, estava uma manhã tão linda...

            De fato, a agradável manhã de novembro, após abrir sobre a metrópole uma cortina ensolarada, paulatinamente estende-lhe um véu de nuvens, prenunciando mais um típico dia da primavera paulistana - tão plena de contrastes quanto a convivência do povo de São Paulo, formado por gente das mais diversas etnias, convivendo num cotidiano repleto de contradições, de cortesias e de agressões. Como dizia a canção de Rita Lee: "milhões de habitantes que se agridem cortesmente".

             As garotas alcançam o sótão da escola.

            - Ui, que escuridão, Milena, acho que vai desabar um temporal! - comenta Carol. 
            - É mesmo! Vai cair um toró! - arrepia-se Milena.
            - O Bixiga vai naufragar, desse jeito!
 

            O prenúncio de mau tempo já atinge toda a região central da cidade, alcançando o bairro do Bexiga - nome conservado pela tradição, mas oficialmente denominado Bela Vista. Trata-se de um  reduto conhecido por sua população predominantemente de origem italiana, considerado a Broadway Paulistana, farto em cantinas, trattorias e teatros, limitando-se com regiões antológicas da cidade: Avenida Paulista, Jardins, Liberdade, Sé... 

            - Rápido, Carol, vamos pegar logo esse globo terrestre e o mapa-mundi, na sala de recursos didáticos. Temos que achar também o mapa das Grandes Navegações - lembra Milena.
             - Esse deve ser muito velho, heim? Já tem quase 500 anos!  - brinca Carol, fitando com interesse a escadinha do sótão que leva a uma água-furtada.
            - Você brinca, mas sabe muito bem que existem de fato velhos mapas dessa época, não é mesmo? - responde Milena, enquanto vê a colega afastar-se.  - Ei, Carol, o que você está fazendo?!  Onde você vai? Volte, desça daí! 
             - Peraí, Milena! Tem um negócio que eu quero ver... - Carol fala baixinho,  enquanto sobe pela pequena escada, alcançando a água-furtada..
             - E precisa subir aí? - Milena, preocupada, segue a amiga, aproximando-se da água-furtada. Carol está espiando pela fresta da janela, visivelmente interessada na paisagem lá fora.
              - O que você está olhando? - quer saber Milena, intrigada. - Vamos embora! O Professor precisa agora do material pedido!
              - Shhh! Pssiu! Sussurra Carol, tentando visualizar melhor o cenário externo.

            Ao longe, em meio a um imenso jardim - misto de fascinante e de sinistro, surge imponente o velho casarão em estilo marroquino, cercado por altos muros, eternamente silenciosos. Suas paredes, enegrecidas e marcadas pelo tempo e pelas condições da cidade - que mudou bastante à sua volta -, ainda guardam resquícios das linhas arquitetônicas originais. 

            - O que foi? Por que você está olhando o velho casarão? Ele está abandonado há muito tempo! Não há nada lá! - insiste Milena.
            - Sabe o que é? Hoje cedo, quando vim pegar as caixas de giz, quis dar uma espiada aqui em cima e eu vi umas estranhas luzes dentro do velho casarão, - revela Carol, arregalando os olhos.
             - Ah!... por isso que você insistiu em vir comigo pegar os mapas? - pergunta Milena, zombeteira.
             - É isso aí. Eu não resisti à curiosidade. Agora, preciso ter certeza de que não foi impressão minha - confessa Carol, voltando a fitar o velho casarão. - Olhe lá! Olhe lá! As luzes, novamente! Eu não me enganei! Algo está acontecendo lá dentro!
             - Onde? Onde? - Milena corre para a fresta da janela, interessada. - Não vejo nada. Cadê? Não estou vendo nada!
             -  Espere! Sumiram. Vamos dar um tempo. Tenho certeza de que vi as luzes!
             - Ah, qualé, Carol! Estamos atrasadas, não vai dar para ficar bundando aqu,i esperando ver algo que pode ter sido um reflexo do sol em uma vidraça ou coisa do tipo. Vamos pegar o material! Daqui a pouco o Professor manda alguém atrás de nós!
            - Tá, tá, Milena, pode ir pegando o material lá na sala; enquanto isso, vou dando mais uma olhada.

            Enquanto Milena entra na saleta de recursos didáticos, Carol aproxima-se mais da fresta da janela. Seus olhos percorrem ansiosos o casarão e o obscuro jardim, na tentativa de visualizar algo que nem ela própria sabe definir. Extremamente curiosa, Carol sempre curtiu histórias de suspense e mistério...

            A Escola Terra Brasilis, edificada em uma parte acidentada do Bexiga, encravada em um dos paredões laterais do Morro dos Ingleses, separa-se do velho casarão através de um muro tão alto que mais parece os limites de uma fortaleza. 
            A única possibilidade de se enxergar algo no interior do terreno da antiga mansão é através da água-furtada, ponto mais alto do prédio escolar, no sótão, que se encontra quase sempre fechado. 
            O próprio edifício da Escola, antigo solar de uma tradicional família paulistana, construído nas primeiras décadas do século, já não oferece tanta segurança. Por essa razão, a direção restringiu o uso da área, possibilitando que apenas uma pequena saleta do sótão abrigasse alguns recursos didáticos.

             - Pronto, Carol. Vamos! Ei, desça daí! 
             - Já vou... Olhe! Olhe lá! Tem um cara no terreno do jardim!
             - Onde, cadê? - Milena deposita o material no chão e corre para ver.
             - Lá, veja, parece um homem! Viu? Passou rápido entre a folhagem! Você viu?
             - Ah, parecia apenas um velhinho! Deve ser algum jardineiro contratado para cuidar do terreno. Veja que o jardim não está totalmente abandonado. Com certeza, o velhinho faz a limpeza para evitar a presença de animais daninhos... Parece que tem uma lei municipal sobre isso...
             - Sim, Milena, mas... o casarão não estava abandonado? Quem teria interesse em preservar o jardim?
             - Ora, os herdeiros, sei lá! Vai ver que o casarão tem algum valor sentimental para eles...
             - Tá, mas que herdeiros? Quem herdou esse casarão? - quer saber Carol. 
             - Não sei! Vai atrás saber, pô! Bem, se você quiser ficar aí, pode ficar. Eu vou indo. E tem mais! Sabe o que eu acho? Que você anda vendo muito filme americano, he, he, he... Você e suas idéias... quanta imaginação! - resmunga Milena, balançando a cabeça, enquanto recolhe o material,  dirigindo-se em seguida para a sala de aula. 

            Carol não tem outra alternativa a não ser segui-la, estonteada de curiosidade.

* * *

            Carol senta-se em sua carteira e fica pensativa, enquanto se desenrola a aula de Geografia. Nem mesmo a eloqüência do Professor Hércules, um líder entre os alunos, desvia a garota de seus pensamentos.  Absorta, olha pela janela e avista lá fora, no pátio, os alunos do Ensino Médio, em aula vaga. 

            - Parece que a classe do Renato está em aula vaga - conclui Carol, pensativa,  tentando visualizar o namorado. 
            Finalmente avista o rapaz, que caminha calmamente, conversando com seu inseparável amigo Beto.
            Carol passa a observar Renato. Apaixonada, com um leve sorriso, segue-o com o olhar e, aos poucos, vão-se dissipando em sua mente as intrigantes luzes do misterioso casarão...
 


 
 
Não perca, no próximo capítulo! 
Mistério no Parque Trianon! Os gatos estão sumindo!
Entra em cena o Renato,  namorado da  Carol, um "gatão" irresistível! 
Carol continuará vendo as estranhas luzes no casarão?
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